NÓS ESCREVEMOS CARTAS / by Carta&Carta

 

A carta parece ser a unidade mínima mais democrática para a construção de uma narrativa. Ainda que dentro de um pensamento-em-linha, como diria o filósofo Vilém Flusser em seu Mundo Codificado. A experiência dada nessa construção visual possui sua própria atmosfera, apresenta sua mancha de texto, o uso de um tipo muito particular impresso manualmente em um papel específico. E se observarmos a "baixa tiragem" ela é, por assim dizer, uma edição exclusiva. É fruto de processos manuais e, uma segunda carta, ainda que apresente o mesmo conteúdo, provavelmente terá pequenas diferenças, preciosas imperfeições conseguidas pela mão de quem se debruça sobre o desenho de cada letra. Essa pequena provocação apresenta um pouco do que pensamos quanto aos processos criativos no campo do design, aqui mais especificamente no editorial. Quando nos apropriamos dessas etapas e tomamos consciência delas, ainda que na simples confecção de uma carta, inserimos em seu resultado uma aura muito própria, capaz de respostas mais adequadas e sensíveis. Passada a revolta com a tecnologia e o estabelecimento de um senso artesanal, somos capazes de desfrutar de dois mundos para experimentar e construir experiências mais autênticas. Os processos manuais e digitais construíram um novo ambiente de trabalho, talvez mais democrático. Esperamos que os designers encontrem tempo e espaço para utilizarem a sinergia gerada por esses campos. Outrora recebi de um professor a seguinte revelação quanto ao abandono de certas práticas: o não aproveitamento e conhecimento do aspecto artesanal roubou a sensualidade do design. A carta não será a mesma se for escrita dentro de um software e enviada por e-mail. Será? Talvez seja uma experiência frustrante recebê-la desta forma.

Originais produzidos para a 4ª Mostra Cultura de Cinema Brasileiro

 

Acreditamos que os processos manuais são bases sólidas para o design gráfico. É um caminho natural. Movimentos como o Do It Yourself (DIY) e Cultura Livre (Free Culture), por exemplo, são claras expressões de um sentimento involuntário e democrático imersos em construções vernaculares manuais. Não é este um posicionamento raso sobre a máquina, mas um começo sobre o começo. Sobre escrever a mão e escolher papéis, sobre fazer escolhas e não ser refém das opções que são dadas pelo painel de ferramentas.

No fundo, nós escrevemos cartas. Bem vindos a este espaço! 
 

Carta
substantivo feminino.
mensagem, manuscrita ou impressa, a uma pessoa
ou a uma organização, para comunicar-lhe algo.